Estranho, ele sempre foi autosuficiente, não esperava nunca que ele entrasse em contato comigo, e ainda pior dessa maneira tão invasiva.
Valorizo ter pelo menos meus pensamentos intactos e somente meus. Mas o sugador dificilmente recorre a ajuda, quem dirá pedir algo a mim, existe algo estranho e prefiro esconder meus pensamentos dele por enquanto. O tempo longe dele me fez descuidar da sua presença e por isso ele conseguiu me tocar assim, existem feridas que nunca se curam e este maldito parece saber disso ou seu instinto, sua besta, sua alma deformada simplesmente ignora. Ainda hoje me lembro do dia que ele me disse que ficaria longe de mim e do outro para que se afastasse das trevas… imortal arrogante e presunçoso.
Preciso me revigorar, com um suspiro sinto os pecados e almas a minha volta, parte deles me preenchem, preciso estar um mínimo recomposta para achar uma vítima. O que é ruim é o tempo que passei sem me alimentar me trouxe contra-tempos. Sei que agora não estou no meu auge, mas nesse bairro que estou tenho certeza que não me faltarão oportunidades, pecados e almas.
Desço pelas escadas espremidas, a tortura da decadência desse lugar a impressão do sofrimento dos que viveram aqui, ainda impregna o ambiente. O toque de minhas unhas na parede faz algumas almas que aqui circulam estremecerem. Finalmente sorrio com gosto, mas me alimentar dos mortos não é tão revigorante, aliás pra falar a verdade apenas um era.
A cidade, posso sentir alguns moribundos perdidos em suas alucinações, eles servem em parte, o fato de não estarem sãos o suficiente faz com que o pecado se perca e suas almas se tornem menos doces, aquela perdida na esquina valeria uma boa briga, mas a ira e inveja que ela sente por mim, não seriam suficiente.
Não, preciso de algo mais palpável, com mais calor, algo com mais luxúria.
Ao pensar nisso vejo um carro se aproximando dela e simplesmente paro, fingindo estar querendo atravessar a rua, basta um olhar de canto para o carro e o motorista subtamente reduz a velocidade para mim, ela percebe e se inoja, deve imaginar como faço isso, o que ela não compreende que eu apenas sou um reflexo do que desejam, do que querem, no canto de minha boca se esboça um sorriso e em poucas palavras entro no carro e lá descubro meu destino.
O hotel, transpira a executivos sedentos, vaidade, ira, inveja, avareza, gula e impregnado de lúxúria, meu suposto amante não espera por menos. O envolvo com meu corpo, circundando-o como uma cobra, ele está perdido em pensamentos do que fazer comigo, ele pergunta meu nome e eu sibilo Eva, ele se sente confortável em meus braços e quando o olho nos olhos o paraliso e por alguns instantes apesar de extasiado de prazer ele confronta todos os seus proprios pecados, ele descobre o que há de bom na sua alma, mas ao mesmo tempo ela se esvai para dentro de mim, me recompondo, me trazendo toda a juventude que preciso e energia para meu futuro encontro, gargalho enquanto vejo seus olhos perdidos e clementes.
Saio de sua cama, ele já foi devidamente devorado, enquanto coloco minhas roupas de volta, tenho uma visão breve de seu futuro, ele vai se atrasar amanhã está petrificado, hipnotizado por mim e pelo reflexo de seus pecados, mas ao invés de redenção, ele abraçará tudo isso e dará mais um passo para as trevas que já o seduzem.
Volto caminhando para casa me deliciando com a noite, vejo o nascer do sol, ao contrário do sugador o sol não me fere, mas incomoda.
O acordar de minha vítima ecoa em minha mente, de certa forma sempre fica um vínculo por um tempo, mas não me preocupo por ele, afinal sou apenas um de seus poucos pecados.
Vou arrumar minhas malas e ir ao encontro do sugador, sua proposta foi no mínimo interessante, pra não dizer tentadora e de certo isso me alimenta.